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| Joana - 8 anos |
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| Escrito por Administrator |
| Quarta, 21 Outubro 2009 21:44 |
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Joana Foi maltratada, viveu numa instituição e ainda viu o irmão morrer queimado no banho. Esta é a história da menina que muito cedo se tornou mulher. Joana tem oito anos, é uma menina igual a tantas outras. Uma menina que corre, que brinca, que salta, que gosta de peluches e de ver desenhos animados. O mundo de Joana parece ter sido pintado de cor-de-rosa, a sua cor preferida. Mas é nos momentos de silêncio que o olhar vazio denuncia a dor que guarda no coração. É a dor de uma infância perdida, a dor da solidão, a dor de perder um irmão. A história de Joana é também a história de Filipe, o menino de dois anos que há três meses morreu queimado numa banheira de água a ferver quando a irmã lhe dava banho. Joana não era só irmã de Filipe, muitas vezes era também mãe e nesse dia, quando o bebé morreu ao seu cuidado, os seus sonhos de menina perderam-se para sempre. A viver com os tios paternos Isabel e José, em Ílhavo, desde a morte do irmão que a menina não consegue deixar de se sentir culpada pelo que aconteceu naquele dia. "Após o Filipe morrer a Joana virou-se para mim e disse-me que a culpa tinha sido dela porque deixou-o sozinho", contou José Costa, tio paterno de Joana. O trágico destino de Joana há muito que parecia estar traçado. A menina nasceu em 2002, fruto de uma segunda relação da mãe, Luísa, com o pai, António Delgado. O casal viveu muito pouco tempo junto e, logo após o nascimento da criança, separou-se. António partiu para o mar, para a pesca do bacalhau, e Luísa, que na altura tinha já três filhas de um outro casamento, ficou com a guarda de Joana. Desde esse dia Luísa tentou a todo o custo que a família paterna da menina não tivesse contacto com ela. Numa das poucas vezes em que a família conseguiu ver a criança deram com ela quase sem vida. "Ela tinha a boca rebentada e várias feridas no corpo. Estava suja, cheia de fome e de sede, não devia comer há dias", contou Isabel Delgado, tia paterna de Joana. Com apenas dois anos Joana foi retirada à mãe e colocada numa instituição em Recardães, onde viveu até completar o quarto aniversário. A menina estava registada apenas em nome da progenitora, o que impedia António e a família de lutar por ela. Apesar de muito pequena, o tempo em que viveu na instituição ficou marcado na memória da menina como se de um pesadelo se tratasse. Quando lhe perguntam onde viveu durante esses anos Joana baixa o olhar e diz apenas: "Vivi no buraco escuro". De seguida agarra-se à tia e, a chorar, pede para que não a deixem voltar para lá. Após uma longa batalha na Justiça, António conseguiu reaver a guarda da filha. Por momentos Joana parecia ter encontrado o amor, o carinho e a segurança que tanto precisava. A mãe, Luísa, não dava sinal de vida, e durante os anos em que a criança viveu com o pai acabou por arranjar outro companheiro do qual nasceu Filipe. Mas Joana parecia nem sentir a falta da mãe, junto do pai era uma menina feliz. "O meu irmão deu-lhe a oportunidade de ser igual às outras meninas da idade dela, deu-lhe o amor e o carinho que ela nunca teve, diz Isabel. Mas a felicidade que parecia quase certa acabou para Joana em Agosto de 2008 quando, num centro de saúde, a companheira de António bateu na menina. A segurança social teve conhecimento do que aconteceu e no mesmo dia entregou a criança novamente à mãe. Junto da mãe Joana era mais mulher do que menina, era mais mãe do que irmã. Lavava a roupa, cuidava de Filipe, limpava a casa. Luísa raramente estava presente. Eram só os dois: Joana e Filipe. Em Vagos, onde residiram nos últimos meses antes do bebé morrer, os relatos de maus tratos são constantes. Joana foi vista diversas vezes por vizinhos a brincar com o irmão já noite cerrada e a percorrer vários quilómetros a pé até ao hipermercado para fazer compras. "Cheguei a ver a menina a vir da lavandaria descalça, a carregar um edredão na cabeça. O irmão seguia atrás. A Luísa chegou a dizer-me que a Joana era a mulher da casa, como se fosse um orgulho obrigar uma menina de oito anos a fazer tudo", disse uma vizinha na altura em que Filipe morreu. Aos tios paternos a menina confessou ainda que passava grande parte do dia fechada em casa com o irmão. O dia em que Filipe morreu era apenas mais um dia em que, como em tantos outros, Joana estava a cuidar do irmão. A menina nada pôde fazer para evitar a sua morte. Mesmo assim, no seu íntimo, a progenitora culpou-a pelo que aconteceu. "Eu avisei-a para não deixar o menino ir para a banheira, ela sabia que era perigoso", explicou na altura ao CM Luísa. Após a morte do irmão Joana voltou a ser retirada à mãe. A menina correu, inclusive, risco de voltar para a instituição, "o buraco escuro" que tanto temia. Mas foi aí que os tios paternos, Isabel e José, decidiram acolher a menina."Não a podíamos deixar voltar para a instituição, ela já sofreu tanto que tínhamos que pôr um ponto final nisto. Esta menina merece ser finalmente feliz", explicou Isabel. Luísa não aceitou, porém, a ideia de Joana viver com a família paterna. A Isabel chegou a dizer que preferia que a menina voltasse para a instituição do que fosse viver com a família do ex-companheiro. A progenitora acabou por aceitar e a criança partiu para casa dos tios só com a roupa do corpo. Luísa não lhe deixou levar nada, nem os brinquedos que tinha no quarto. Por tudo isto Joana não hesita quando lhe perguntam se quer voltar para a mãe. "Não, a minha mãe não gosta de mim", diz sem nunca levantar o olhar. A menina evita falar do irmão. Com a tristeza estampada no rosto, folheia um livro em que se lê: "Quando morre alguém de quem nós gostamos, ficamos muito tristes. Correrão muitas lágrimas, mas as lágrimas podem ser boas. " Joana agora é feliz, mas é uma felicidade que tem um prazo de validade. Daqui a três meses a segurança social vai reavaliar a situação da menina em casa dos tios. Sentada na mesa da cozinha, Joana aguarda pelo dia em que o seu futuro será decidido.
Retirado de: Correio da Manha on-line em 20-10-2009
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| Actualizado em Quarta, 21 Outubro 2009 21:50 |



